Um pedido inusitado

Publicado em 8 de junho de 2017
por Welington Gonzaga
Um pedido inusitado
# Crônica #
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O executivo tinha que usar o computador naquela hora por conta de uma urgência do trabalho. Precisava finalizar um relatório e enviá-lo por e-mail ao escritório. Mas estava em local público e não gostava da ideia de usar o computador ali no meio da praça. Mesmo assim, diante do prazo curto, sentou num dos bancos que estavam sob a sombra das árvores e ligou o notebook apoiando-o no colo.

O barulho do trânsito e o burburinho das pessoas que passavam ao redor não o incomodavam. Sua única apreensão era ser abordado por alguém mal intencionado. Observava numa das pontas da praça uma roda com cinco moradores de rua. Embora o grupo aparentasse ser inofensivo, o executivo alternava o olhar entre a planilha no computador e os homens ao longe.

Alguns minutos depois o executivo percebeu que um dos homens começou a caminhar em sua direção. Vinha a passos lentos com uma mochila nas costas. Embora internamente estivesse inquieto, o executivo continuou a trabalhar no seu relatório sem dar sinais de desconforto ou de insegurança. Talvez o homem passasse reto.

Quando chegou em frente ao banco em que estava o executivo, o homem parou. Girou o corpo lentamente e fez uma abordagem humilde.

— Senhor! Desculpa incomodar!

— Pois não — respondeu o executivo.

— Vi que o senhor está com o computador e queria pedir uma coisa.

O executivo estranhou e pensou várias coisas. O que aquele homem pretendia pedir? Talvez quisesse uns trocados para comprar um lanche, mas por que, então, haveria de mencionar o computador? Será que iria tomá-lo e sair correndo? Mas isso seria incoerente com a abordagem que fez.

— Não se preocupe, senhor — disse o homem ao perceber o estranhamento estampado no rosto do executivo — tenho apenas um pedido simples.

— Em que posso ajudá-lo?

Nesse momento o morador de rua tirou um celular do bolso da camisa. Era um modelo antigo de smartphone. Um aparelho que estava descascado e com alguns riscos que podiam ser vistos a um metro de distância.

— Você quer dinheiro para colocar crédito? — antecipou-se o executivo.

— Não, senhor. Tenho vergonha de perguntar, mas gostaria de saber se o senhor tem músicas no seu computador.

— Tenho.

— O senhor poderia passar algumas pro meu celular? Ele tem muito espaço porque eu não tenho nenhum arquivo nele. A música é pra eu ouvir — argumentou.

Era um pedido inusitado. O executivo ficou tão surpreso que nem respondeu imediatamente ao homem. Apenas fez um gesto de afirmação com a cabeça.

— Mas eu não tenho um cabo que seja compatível com seu aparelho para que eu possa transferir as músicas.

— Que pena — disse o homem abaixando a cabeça em sinal de frustração.

Não seria dessa vez que conseguiria algumas canções para o celular. Mas antes que seguisse seu rumo ou que agradecesse ao executivo pela sua disponibilidade, foi surpreendido por uma pergunta do executivo.

— O celular tem bluetooth?

— Tem, sim —  respondeu o homem — mas nunca usei.

O homem passou o celular para as mãos do executivo. O aparelho foi rapidamente pareado com o computador e cerca de 30 arquivos transferidos. Eram músicas de vários artistas que estavam numa playlist nomeada como “canções para melhorar o dia”. Era a lista favorita do executivo. Depois desse dia, passou a ser ainda mais.

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