O trauma da marmita

Publicado em 14 de junho de 2017
por Welington Gonzaga
O trauma da marmita
# Ficcionando a realidade #
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Nunca almoce dentro de um ônibus. O alerta principal vem logo no início do texto para que ninguém fique desavisado e venha a cometer esse erro. Um erro pode virar um trauma. Tal fato aconteceu pouco depois de uma consulta ao nutricionista, quando alimentação saudável e nos horários corretos viram o lema de quem sai do consultório com mentalidade fitness recém-criada. Não importa se vai viajar no final de semana. É preciso levar a marmita com todos os alimentos piamente preparados e pesados conforme a recomendação do especialista.

Contabilizando a hora do café da manhã, do treino e levando em conta que o intervalo entre as refeições não pode ser superior a três horas, então o almoço daquele dia deveria ser às três da tarde. Na marmita estavam 200g de arroz integral e 100g de carne magra refogada com bastante alho, cebola e salpicada com cheiro verde. Nem parecia comida de dieta. Estava longe de ser uma comida sem-graça.

Pelo menos na hora do preparo, o aroma era tentador. Assim, a marmita foi colocada dentro da mochila que iria a tiracolo no ônibus. Seguimos viagem. Pontualmente, às três horas da tarde, o ônibus parou na plataforma da rodoviária de uma cidade para embarque de outros passageiros. Seriam 15 minutos de parada. Tempo suficiente para tirar a apetitosa marmita da mochila e apreciar o almoço.

Ao tirar a tampa da marmita o motorista desligou o ar-condicionado do ônibus. Parecia de propósito, embora não fosse. O cheiro de comida impregnou no ambiente. A fome deu lugar a um misto de vergonha e arrependimento. Não tinha o que fazer. Nem adiantava mais fechar a marmita. Embora isso tenha sido feito na tentativa de disfarçar a origem daquele cheiro de comida e de não assumir a autoria daquele quase ato terrorista cometido dentro do ônibus. Afinal, era uma bomba. Uma bom de cheiro avassalador.

Não se tratava de cheiro azedo, mas de tempero forte. Cheiro de comida caseira acebolada. Passados três minutos – que duraram uma eternidade – dava a impressão de que o cheiro havia dissipado. Mas apenas tínhamos acostumado com o cheiro. Os outros passageiros também, pois nenhum deles alarmou o incômodo. Nesse momento embarca uma mulher super extravagante acompanhada da sua filha de mesma personalidade. Bastou colocar o queixo dentro do ônibus e já gritou um “Nossa, que cheiro de comida!”.

Afundei na poltrona e tentei fingir de desentendido. Apesar do esforço, provavelmente estava com os olhos arregalados típicos de quem tem culpa. A mulher continuou a falar. Para ser indiferente às suas queixas, mudei de estratégia. Passei, então, a fingir que estava dormindo. Era o golpe mais clichê que poderia aplicar dentro do ônibus, mas era o único recurso disponível. Acompanhei a mulher extravagante pela voz. Ela acomodou-se na poltrona logo atrás da minha.

Entre uma e outra suave abertura dos olhos, pela fresta de visão pude perceber quando uma outra mulher – uma senhora de 50 e poucos anos – sentada do outro lado do corredor comia calmamente um espetinho de frango. Era uma muçulmana com vestimenta característica que a pouco falava ao celular numa língua estrangeira. Continuei a fingir que dormia. Como ainda sentia fome – pois a marmita permanecia lacrada dentro da mochila – comecei a imaginar como aquele espeto da senhora estaria saboroso.

Mas mal comecei a sonhar com a comida alheia e a mulher extravagante voltou a resmungar no banco de trás. “Agora sei de onde está vindo esse cheiro”, disse ela provavelmente olhando em direção à muçulmana inocente na história, que, por sua vez, não deve ter entendido a indireta feita em língua portuguesa. A viagem foi longa. Um trauma foi criado. E, agora, um alerta foi dado: não coma sua marmita dentro do ônibus.

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