Análise de discurso, não tenha medo

Publicado em 3 de junho de 2017
por Welington Gonzaga
Análise de discurso, não tenha medo
# Dica de Livro #
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A análise de discurso pode causar pânico e desespero em muita gente. Talvez porque a pessoa simplesmente não goste do assunto, mas, muitas vezes, apenas porque no passado o indivíduo teve uma experiência negativa a respeito do tema. Por isso é preciso superar o trauma – provavelmente da época da faculdade – e atingir um outro nível de “entendimento do mundo” a partir da análise de discurso.

A leitura do livro “Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos“, de Eni Puccinelli Orlandi, pode ajudar o iniciante a ter mais clareza sobre o assunto. “A análise de discurso, como seu próprio nome indica, não trata da língua, não trata da gramática, embora todas essas coisas lhe interessem. Ela trata do discurso. E a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando”, escreve a autora.

Quando analisamos um texto devemos ter capacidade de interpretar o que está claramente dito, em palavras, e o que está implícito, subentendido, ou seja, aquilo que não foi propriamente dito mas que pode ser entendido. Analisar significa compreender os sentidos atribuídos a um discurso. É como se a análise permitisse ir além do texto que se apresenta.

No capítulo “O Dito e o Não Dito”, a autora escreve que quando se diz “deixei de fumar”, por exemplo, “o pressuposto é que eu fumava antes”, ou seja, não se pode dizer que deixou de fumar sem antes ter fumado. “O posto (o dito) traz consigo necessariamente esse pressuposto (não dito mas presente). Mas o motivo, por exemplo, fica subentendido. Pode pensar que é porque me fazia mal. Pode ser também que não seja essa razão. O subentendido depende do contexto”, diz Orlandi.

Para analisar um discurso é preciso ter uma bagagem prévia sobre o contexto, a cultura, a linguagem em questão. “O estudo do discurso explicita a maneira como a linguagem e a ideologia se articulam, se afetam em sua relação recíproca”, escreve a autora no capítulo que trata sobre a formação discursiva.

Ao longo das 100 páginas do livro, Orlandi usa outros exemplos para facilitar a compreensão do que vem a ser a análise de discurso. Considerando a palavra “terra”, ressalta que tal substantivo não tem o mesmo significado “para um índio, para um agricultor sem terra e para um grande proprietário rural”. Haverá diferença também se a palavra vier escrita com letra maiúscula ou minúscula. O analista do discurso deve atentar-se para todos esses detalhes, para essas características e esses pormenores de um texto.

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