Jornalismo cidadão e suas potencialidades

Publicado em 7 de novembro de 2016
por Welington Gonzaga
Jornalismo cidadão e suas potencialidades
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O jornalismo colaborativo ou cidadão é aquele no qual as pessoas comuns contribuem com o trabalho dos jornalistas profissionais. Essa contribuição acontece através do fornecimento de informações, fotos e vídeos. Tal conteúdo pode possuir aspecto amador, mas tem grande valor jornalístico.

O meio digital mudou a maneira de fazer jornalismo. A linguagem multimídia passou a contar com escrita cada vez mais enxuta e objetiva. Mas não é só isso. Há o aspecto multimídia com a inserção de áudios, vídeos e imagens juntos aos textos.

Na tela do computador ou dos dispositivos móveis (smartphones e tablets) é possível interagir, ir pra lá e pra cá dentro de uma notícia. A adequação desse conteúdo para o meio digital exige um entendimento maior dos jornalistas. Afinal, é uma nova linguagem.

Ao mesmo tempo não quer dizer que haja a obrigatoriedade de os jornalista saberem programação ou coisas complexas do tipo. Mas, sim, que saibam pelos menos os recursos e as possibilidades disponíveis. É o caminho para poderem ampliar seus horizontes de produção e fazer exigências adequadas para uma equipe técnica competente – essa, sim, que dominará a complexa programação.

O aumento do acesso à internet através de telas reduzidas como as de smartphones é uma realidade. Há, então, a necessidade de adaptar os conteúdos aos dispositivos com 4 a 6 polegadas, no caso dos celulares inteligentes, e, no caso dos tablets, com até 12 polegadas. A exigência é grande porque a eficiência do uso desses recursos é tão importante quanto o conteúdo. O usuário quer ler um texto interessante e, ao mesmo tempo, ter facilidades e respostas às suas ações dentro de um aplicativo.

Mas essa nova realidade de consumo e de produção jornalística vai além das questões técnicas e de linguagens. A mudança perpassa também pelo comportamento da audiência e pela exigência de um novo modelo de negócio para que as empresas de comunicação continuem viáveis. Em relação a essa nova realidade do jornalismo e ao papel do público nisso tudo existem dois vídeos no YouTube que podem auxiliar na reflexão e na compreensão do futuro do jornalismo: uma palestra com Tom Rosenstiel, sobre o cenário futuro, e outra com Paul Lewis, sobre jornalismo cidadão. Ambas estão disponibilizadas no canal Tedx talks.

The future of Journalism: Tom Rosenstiel at TEDxAtlanta. Hoje as pessoas têm acesso a mais notícias. O público, assim, vai dominar o futuro das notícias. No sistema antigo havia grupos responsáveis pelas notícias, que diziam ao público o que ler, o que saber, etc. Agora, as pessoas têm controle sobre a própria aprendizagem, sobre os mais variados assuntos. Esse novo comportamento traz impactos para a economia como a conhecemos. Houve, consequentemente, uma redução no número de anunciantes nos veículos tradicionais, queda de receita e, notadamente a partir de 2008, houve uma grande redução no número de jornalistas atuantes nas redações. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de pessoas nas redações dos jornais foi reduzido em 30% na última década.

Mas o jornal impresso não é a única vítima da era digital. A internet também fez com que a audiência da TV diminuísse consideravelmente nos últimos anos. Apesar disso tudo, as pessoas não estão ficando distantes das notícias. Trata-se apenas de uma nova era de consumo de conteúdos. Mas isso não aconteceu de inesperado. É uma evolução constante que acontece desde a invenção da prensa de Gutenberg, passando pelo telégrafo, até chegar aos dispositivos móveis da contemporaneidade.

A novidade do mundo atual é que, se antes as pessoas adaptavam suas rotinas para consumirem as informações, agora são os meios de comunicação que precisam se adaptar para chegar às pessoas no momento em que elas estiverem disponíveis. A partir daí é possível compreender o crescimento e a popularização do conceito on demand, em inglês, que significa sob demanda. A notícia deve estar disponível no momento que for mais conveniente para o público. A notícia tende a estar no bolso para ser acessada a qualquer momento.

O jornalismo agora tem o desafio de entender os ritmos do público ao longo do dia. Por exemplo, um indivíduo começa o dia conectado pelo tablet, passa para o celular no trajeto para o trabalho, muda para o computador durante o expediente e retorna para o smartphone na volta para casa, quando, então, poderá conectar-se pela TV e novamente pelo celular na hora de ir para cama. A conexão acontece durante todo o dia. Com isso, tudo é dinâmico e deve ser acompanhado pelos profissionais da comunicação.

Outro aspecto positivo atual é que, com a internet, as pessoas não buscam apenas uma fonte de informação. A partir do momento em que tomam conhecimento de um conteúdo, por exemplo, na televisão, há uma grande probabilidade de buscarem mais detalhes sobre esse mesmo assunto na web.

Ao contrário do que se pensava no início da internet, as pessoas passaram a se interessar por conteúdos mais longos também no ambiente digital. Isso foi, em parte, viabilizado pelas telas sensíveis ao toque que aprouveram a experiência de leitura digital: 73% das pessoas às vezes leem longas histórias em seus tablets e 70% em seus smartphones; diariamente, 19% das pessoas leem longas histórias pelos tablets e 11% pelos smartphones.

Nesse contexto, os jornalistas precisam cada vez mais apresentar evidências e provas que reflitam em confiança no seu trabalho. Isso quer dizer que os meios precisam, então, ser mais transparentes na forma de entregar seus conteúdos. Além disso, o desafio está na busca por meios alternativos e inovadores de sustentarem a produção jornalística.

Citizen journalism: Paul Lewis at TEDxThessaloniki. Há uma nova forma de fazer jornalismo, o que algumas pessoas chamam de jornalismo cidadão e outras de jornalismo colaborativo. As pessoas não são mais apenas consumidores passivos de notícias e, agora, podem ser co-produtoras de conteúdos noticiosos. A participação do público pode garantir maior verdade ao relato jornalístico e ajudar decisivamente no trabalho investigativo dos profissionais da área. Lewis destaca dois casos em que a colaboração ajudou a desmentir informações oficiais e, finalmente, trazer a verdade à tona.

O primeiro caso foi a morte de Thomas, um rapaz que foi assassinado durante protestos contra o G20. Inicialmente, informações oficiais diziam que se tratava de uma morte natural, mas havia controvérsias. A partir das mídias sociais, principalmente o Twitter, foram surgindo materiais que enfraqueciam a versão dita oficial dos acontecimentos. Com esse exemplo, Paul reforça que as ferramentas sociais online permitem que as pessoas sejam livres e questionadoras sobre pontos que lhes incomodam. Assim, surgem materiais que podem ajudar no trabalho dos jornalistas. No caso da morte de Thomas, Paul conseguiu encontrar 20 testemunhas. Foi um vídeo gravado por uma dessas testemunhas que levou ao esclarecimento dos fatos: Thomas foi morto pela ação da própria polícia.

O segundo relato de Paul diz respeito a um angolano que vivia em Londres ilegalmente e que seria enviado para seu país de origem. A morte desse angolano, segundo comunicados oficiais, teria acontecido devido a complicações de uma doença. Mas, na verdade, o angolano estava resistindo à sua deportação e, por isso, foi contido por guardas e enviado para um “porão” dentro do avião onde morreu por asfixia. Outra vez o Twitter foi ferramenta fundamental para elucidar a verdade: uma postagem do jornalista, em Londres, chegou a uma pessoa, em Angola, que estava no mesmo voo da vítima. Essa pessoa confirmou a informação de que o deportado pedia socorro e relatava dificuldades para respirar no local em que havia sido colocado. Uma mensagem de áudio enviada pela testemunha esclareceu os fatos.

São apenas dois exemplos que mostram a força do jornalismo cidadão. Diante de situações de injustiça, conflitos e outros fatos importantes, o cidadão deve registrar fotos e vídeos para que possa auxiliar, posteriormente, o trabalho dos jornalistas.

Um Comentário

  1. Welington Gonzaga disse:

    Compartilhe aqui sua opinião a respeito do jornalismo colaborativo. Quais os aspectos positivos e negativos desse tipo de contribuição de cidadãos comuns com jornalistas profissionais? Aproveite e assista aos vídeos de Tom Rosenstiel e Paul Lewis.

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