Os sentimentos e as emoções
podem influenciar a pauta jornalística

Publicado em 9 de setembro de 2016
por Welington Gonzaga
Os sentimentos e as emoções <br>podem influenciar a pauta jornalística
# Reflexão #
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Ao assistir a uma entrevista do filósofo e pesquisador da comunicação Jesús Martín-Barbero, numa das edições do programa “Roda Vida”, gravado no ano de 2002 (assista no final do post), fiquei a imaginar como os sentimentos humanos são importantes na estruturação de uma pauta jornalística. Desde a pré-pauta até a sua edição final, o produto jornalístico é pensado a partir de uma consideração com os sentimentos humanos. Acredito que isso aconteça no impresso, no rádio, na TV e na internet.

Embora o discurso dominante de quem faz jornalismo seja o de que se pratique a objetividade e a isenção de valores na tessitura da narrativa, o que se pode verificar é uma impossibilidade de não interferência de quem produz. Todo produto é resultado de escolhas. Há a escolha de uma palavra e não de outra, de um trecho da entrevista e não de outro, de uma imagem para ilustrar a reportagem e não de outra, etc. Além dessa característica indissociável do jornalismo, de que todo produto não passa de um fragmento interpretado de uma realidade, os profissionais da comunicação consideram também os resultados que esse mesmo produto impactam no público, ou seja, as emoções humanas têm seu peso na definição da pauta.

A partir desse ponto de vista é que passei a imaginar como as sensações e os sentimentos do público são responsáveis pelo que será ou não pauta e, principalmente, de que maneira serão conduzidas essas pautas. Sem hipocrisia, na prática do jornalismo o que se observa é que mais importante do que informar bem é informar para um maior número de pessoas. O que se deveria esperar do jornalismo, então, seria que, quanto maior o público, maior fosse a qualidade do material produzido. Mas nem sempre isso acontece. A maneira como o jornalismo explora as sensações da audiência na obtenção de visibilidade leva, muitas vezes, ao que se concebe como sensacionalismo. É uma maneira de produzir jornalismo com abuso de dramaticidade e de estardalhaço.

Quando Martín-Barbero menciona a importância das sensações despertadas na audiência exemplifica a abordagem que a mídia fez da morte de Tancredo Neves. O que chama a atenção do pesquisador é a diferença na abordagem do impresso para a TV. Não se trata apenas das peculiaridades de cada um, mas, sim, do enfoque diferente dado a um mesmo assunto. De acordo com Martín-Barbero, os jornais impressos preferiram uma abordagem objetiva enquanto que a TV abusou das emoções dos populares diante do estado de saúde do então presidente do Brasil, em 1985, que sequer chegou a tomar posse. Por mais que digam que o apelo emocional da televisão sempre foi mais evidente devido às suas características audiovisuais ou que a TV parece mais viva que o impresso, daí porque provocar emoções mais facilmente, não se tratava disso a abordagem de Jesús Martin-Barbero. É questão de direcionamento da pauta, não de linguagem.

A relevância das sensações nos desdobramentos da pauta jornalística está relacionada ao interesse da audiência. Tanto é verdade que se um assunto não despertar sentimento algum em quem lê ou assiste, ou seja, se não surtir qualquer tipo de interesse, não haverá motivo para que seja pautado. O público normalmente tem interesse apenas em assuntos que despertam sensações. E o que o bom jornalista faz é debulhar a pauta para que cause o máximo de emoções possíveis. Tudo isso sem deixar que sejam percebidas, principalmente, suas artimanhas de discurso para cativar pela visão e pela audição da audiência. Claro que se houvesse maneira, hoje, o jornalismo tentaria provocar também o olfato e o paladar humano com suas pautas.

4 Comentários

  1. Welington Gonzaga disse:

    O que você pensa a respeito da maneira como o jornalismo trata as emoções de seu público? Qual seu ponto de vista sobre a relação da pauta e os sentimentos humanos? Assista a seguir o trecho da entrevista com o espanhol Jesús Martín-Barbero, no programa “Roda Viva” de 2002 (veja a partir do tempo 5’47”).

    O vídeo está publicado no YouTube, podendo ser excluído ou ficar indisponível a qualquer momento.

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