O jogo das palavras
na construção dos sentidos

Publicado em 29 de agosto de 2016
por Welington Gonzaga
O jogo das palavras <br>na construção dos sentidos
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A disposição das palavras em um texto define o sentido daquilo que se escreve ou que se diz. Um vocábulo colocado antes ou depois de um substantivo ou de um verbo pode fazer toda a diferença. Dizer que “alguém pequeno pensa” ou que “alguém pensa pequeno” não é a mesma coisa.

Normalmente os textos são escritos na ordem direta para facilitar a compreensão. A sequência com sujeito, verbo e predicado define a regra da objetividade que, então, domina as produções textuais contemporâneas. Esse padrão busca garantir ao leitor comum certo conforto ao ler um texto. É que um texto com muitas vírgulas, com diversos pronomes relativos e várias palavras rebuscadas é repelido pelos leitores. Os motivos para isso são inter-relacionados e vêm de uma mistura de preguiça, de limitação intelectual e de não hábito de leitura.

A inversão na ordem de uma frase pode transformar algo simples em estranhamente complexo para um leitor comum, já que a localização das palavras no texto pode facilitar ou dificultar o entendimento. Existem recursos sintáticos que deveriam garantir clareza e até evitar a repetição de algumas palavras. Mas, em vez de facilitar, o anaforismo — quando uma palavra remete a outra anteriormente referida — e a catáfora — quando um termo é usado para fazer referência a algo que ainda será mencionado no texto — acabam complicando a interpretação do leitor mediano.

O jogo das palavras tem também sua carga de humor. Millôr Fernandes tem um texto interessante, intitulado “Snooker” (leia nos comentários), publicado na obra “Trinta anos de mim mesmo“, em 1973, no qual constrói um discurso que induz o leitor ao erro de interpretação. O autor diz uma determinada coisa que causa espanto e, logo em seguida, complementa a informação. Veja como exemplo o trecho a seguir: “Logo em seguida chegou minha mulher e deu-me na cara. Um beijo, digo“. De imediato o leitor pensa que o autor recebeu uma bofetada da esposa, mas, a informação seguinte esclarece que se tratava apenas de um beijo no rosto.

Essa estrutura escolhida por Millôr Fernandes busca apenas o humor, mas pode servir de base para uma reflexão que envolve a possibilidade de manipulação em outros tipos de texto. Os jornais, por exemplo, carregam suas ideologias em manchetes, títulos, subtítulos e entrelinhas. A orientação vale também para a escolha das imagens, das fotos, das legendas, entre outros elementos informativos. O leitor precisa estar atento.

Um Comentário

  1. Welington Gonzaga disse:

    A seguir o texto “Snooker“, de Millôr Fernandes:

    Certa vez eu jogava uma partida de Sinuca e só havia a bola sete na mesa. De modo que mastiguei-a lentamente saboreando-lhe os bocados com prazer. Refiro-me à refeição que havia pedido ao garçom. Dei-lhe duas tacadas na cara. Estou me referindo à bola. Em seguida saí montado nela e a égua, de que estou falando agora, chegou calmamente à fazenda de minha mãe. Fui encontrá-la morta na mesa, meu irmão comia-lhe uma perna com prazer e ofereceu-me um pedaço: “Obrigado”, disse eu “já comi galinha no almoço”.

    Logo em seguida chegou minha mulher e deu-me na cara. Um beijo, digo. Dei-lhe um abraço. Fazia calor. Daí a pouco minha camisa estava inteiramente molhada. Refiro-me à que estava na corda secando, quando começou a chover. Minha sogra apareceu para apanhar a camisa. Não tive remédio senão esmagá-la com o pé. Estou falando da barata que ia trepando na cadeira.

    Malaquias, meu primo, vivia com uma velha de oitenta anos. A velha era sua avó, esclareço. Malaquias tinha dezoito filhos, mas nunca se casou. Isto é, nunca se casou com uma mulher que durasse mais de um ano. Agora, sentado a sua frente, Malaquias fura o coração com uma faca. Depois corta as Pernas e o sangue vermelho do porco enche a bacia.

    Nos bons tempos passeávamos juntos. Eu tinha um carro. Malaquias tinha uma namorada. Um dia rolou a ribanceira. Me refiro a Malaquias. Entrou pela pretoria adentro arrebentando a porta e parou resfolegante junto do juiz pálido de susto. Me refiro ao carro. E a Malaquias.

    (In Millor Fernandes, Trinta anos de mim mesmo. São Paulo, Abril Cultural, 1973.)

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