Os manuais de redação
e a padronização dos textos*

Publicado em 8 de junho de 2016
por Welington Gonzaga
Os manuais de redação <BR>e a padronização dos textos*
# Opinião #
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Os manuais de redação existem para o bem e para o mal. Tudo vai depender do ponto de vista e do contexto em que são usados. Ainda lembro dos tempos de foca¹ quando, ao cair no mercado de trabalho, parecia ser necessário ter o diploma de jornalista numa das mãos e na outra um manual de redação bem conceituado. Mesmo que não fosse jornalista da Folha de São Paulo² ou do Estadão², ainda assim parecia necessário ter o manual de um desses dois grandes jornais sempre à disposição. Para um profissional ainda inseguro sobre como atuar no mundo real do jornalismo, o manual funcionava como uma espécie de amuleto. Ele aparentava ser capaz de trazer certa proteção contra a má sorte de uma barrigada³ ou de qualquer outra mancada de início de carreira.

Esse afeto pelos manuais de redação não é regra geral para os focas. Talvez sirva apenas para os inseguros que não tenham absorvido suficientemente a firmeza emocional e intelectual — por falha de seus “tutores” de redação — nos estágios realizados ao longo da vida acadêmica. O debate surge porque os manuais podem ser realmente úteis diante de qualquer dúvida relacionada ao que é considerado padrão jornalístico, mas, ao mesmo tempo, podem ser camisas de força capazes de limitar ou impedir a produção jornalística. É difícil escrever pressionado por padrões.

Há quem considere os manuais verdadeiras amarras para a criatividade. Porém, imaginando que a pessoa já possua consciência sobre o estilo de texto que deva escrever — levando em conta o perfil do veículo para o qual trabalhe — uma perspectiva válida para o uso ideal de um manual de redação seria recorrer às regras ali detalhadas somente após a finalização de um texto. O jornalista deveria escrever seu texto normalmente, sem interrupções, e durante a escrita marcar pontos onde as dúvidas viessem a surgir. Apenas quando finalizasse esse texto é que deveria recorrer ao manual para esclarecer os pontos mais nebulosos. Isso, claro, considerando que o jornalista já tenha assimilado a maioria das regras desse mesmo manual. O manual foi criado para ajudar.

Na prática penso que os manuais não interfiram tanto no trabalho do jornalista dentro da redação. A partir do momento em que o profissional conhece os padrões básicos da empresa com a qual tem vínculo, a estruturação do texto seguirá seu ritmo natural. Talvez apenas no início o jornalista tenha uma estranheza ou um período de adaptação ao que é estabelecido pelo manual. Mas quando internalizar tais orientações, quiçá fique até mais fácil trabalhar.

Penso que os manuais sejam muito mais uma maneira de tornar oficiais as regras estabelecidas por um veículo do que qualquer outra coisa. Para não haver um conflito interno sobre quem tem razão sobre uma determinada questão, eis que o veredicto está nas páginas do manual de redação. É uma maneira de apaziguar equipes e evitar discussões desnecessárias. Os manuais de redação podem otimizar a produção jornalística, além de harmonizar o conteúdo do jornal.

Um fato curioso é que alguns desses manuais conceituados também servem de referência — mesmo que parcialmente — para veículos menores que não possuem manuais próprios.

A padronização dos textos proporcionada pelos manuais garante, mesmo que teoricamente, maior qualidade àquilo que chega aos olhos do público. Não se trata de um manual vago, baseado em frescuras e “mimimis“, mas principalmente de orientações quanto à aplicação da norma culta da Língua Portuguesa. Quem ganha com isso é o leitor!

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* O conteúdo desta publicação foi escrito originalmente para uma atividade de um curso de pós-graduação em “Produção de Conteúdo em Jornalismo”.
¹ Foca: jornalista novato, recém-formado, sem experiência.
² Acesse os manuais da Folha de São Paulo e do Estadão em suas versões online.
³ Barrigada: divulgação de notícia falsa ou com erro.

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