Mel, a gata de vida amarga

Publicado em 2 de Maio de 2016
por Welington Gonzaga
Mel, a gata de vida amarga
# História de Felino #
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Imagine uma gata exuberante e com um nome doce. É a Mel. Uma persa mestiça de pelo negro rajada com mechas alaranjadas, bem distribuídas ao longo do corpo. Mas, por incoerências da vida, apesar de ter um nome doce, Mel levava uma vida amarga. Estava mais para uma vida de cão que de gato.

Teoricamente, Mel morava com os donos numa casa do outro lado da rua. Mas quem não sabia disso poderia acreditar que se tratava de um bicho da rua, livre e sem lar. O comportamento também lembrava muito mais um animal selvagem que domesticado. A vida de dificuldades na rua deixara Mel sempre na defensiva. Chutes, pauladas e vassouradas certamente a deixaram assim, num mau humor constante.

Mas mesmo com as dificuldades e a falta de trato, Mel preservava sua beleza. Nem uma cicatriz que impedia o crescimento do pelo na parte de cima do olho direito tirava sua exuberância. Apenas fazia com que seus olhos felinos grandes e amarelos parecessem ter tamanhos diferentes. O olho direito era mais fechado que o esquerdo. Assemelhava-se a um inchaço que não cessava. Diziam que era uma assimetria decorrente de um espancamento sofrido pelo seu primeiro dono. Porém, nunca nada foi comprovado.

O fato é que Mel chamava a atenção. Tanto que em seu primeiro dia naquele endereço – supostamente após ser adotada pela sua segunda família – surgiu com uma coleira rosa e com ares de perdida. Chegou a ser acolhida por uma vizinha bem intencionada, mas logo os donos lhe deram falta e bateram de porta em porta até encontrá-la. Não tivesse sido assim, quiçá, o destino da Mel também tivesse sido diferente.

Durante mais de dois anos apenas observei aquela gata. Normalmente ela estava do outro lado da rua, na calçada. Mas, certo dia, Mel começou uma aproximação. Não recordo a data, embora tenha sido especial. Para entender aquela mudança de comportamento recorri à velha máxima de que os gatos sabem identificar – talvez pelo olhar – os humanos que não lhes oferecem riscos. A aproximação foi gradativa. Só depois de mais um ano que Mel me permitiu tocá-la. Foi um carinho rápido no pelo enquanto ela comia uma porção de ração colocada no chão. Parecia que nascia ali algum tipo de ligação entre nós.

Algumas semanas depois os donos dela decidiram mudar para outro bairro. Fui pego de surpresa quando vi um caminhão de mudanças estacionado na frente da casa, com a família colocando os pertences dentro do baú. Mel também observava a movimentação sentada na calçada. Tudo foi colocado dentro do caminhão, menos a gata. Mel foi deixada para trás. Não porque os donos tivessem a intenção, mas porque a gata de repente sumiu na hora da partida.

Mel ficou só, sem casa e sem donos. Na verdade sua realidade não mudara tanto assim. A maior diferença talvez fosse que agora a casa estava fechada. Durante aqueles dias, sempre que eu chegava do trabalho, no início da noite, Mel compartilhava comigo um ritual que havíamos criado desde nossa ligação. Enquanto abria o portão, ela ficava passando entre minhas pernas. Eu entrava em casa e Mel ficava esperando na porta. Minutos depois eu voltava com uma porção de ração e era evidente que a gata ficava feliz. Das 24 horas do dia, aquele era o único momento meu e da Mel. Ela, com fome, comendo vorazmente a porção de ração fresca e eu fazendo carinho em seu pelo. Nosso vínculo durava poucos segundos, mas era significativo. Tanto eu quanto Mel saíamos felizes daquele contato que passamos a estabelecer quase que diariamente.

Na semana seguinte à mudança, a família voltou duas vezes para buscar a Mel. Mas com seu jeito selvagem e arisco, ninguém conseguiu apanhá-la. A última tentativa aconteceu num domingo à tarde, quando os brasileiros estavam atentos à Câmara dos Deputados votando a aprovação do impeachment da presidente. O dia era histórico, com transmissão ao vivo e ininterrupta pela TV. Mas eu estava mais preocupado era com a Mel.

Ela preferiu continuar no bairro. Não quis seguir adiante com seus donos. Até hoje é a gata exuberante da Rua Guanabara. Apesar de enfrentar as amarguras da vida na rua, prefere assim. Não deixa ninguém adotá-la. Prefere a liberdade, com limitadas porções de ração e de carinho. Nos dias frios, dorme numa caixa de papelão que a vizinha colocou na garagem. Talvez no futuro Mel mude de ideia, abandone a rua e volte a ter um lar fixo com alguém. Até lá, preservaremos nosso vínculo.

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