Imagens da audiência

Publicado em 30 de Maio de 2016
por Welington Gonzaga
Imagens da audiência
# Análise #
0

Você já reparou na quantidade de imagens gravadas em celular que são usadas nas reportagens da TV? Cada vez mais os telejornais contam com a colaboração dos telespectadores. Alguns chamam de jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo, jornalismo democrático ou jornalismo de rua. Mas independente do nome adotado, o importante é que é uma tendência contemporânea do jornalismo audiovisual.

A seguir compartilho uma análise que fiz para uma atividade semanal da aula de pós-graduação. A proposta do curso “Gestão de conteúdo em comunicação” era que se fizesse uma observação sobre o uso de imagens da audiência. Para isso decidi analisar uma reportagem do Jornal Nacional, da Rede Globo, veiculada em 30 de maio de 2016.

Através da matéria “Temporal mata quatro pessoas em deslizamentos em Recife” (assista neste link) é possível verificar alguns exemplos de uso de imagens registradas pela audiência. A reportagem em questão mostra alguns estragos causados pela chuva no nordeste do país e, para legitimar a narrativa de sofrimento da população vítima do temporal, a edição utiliza imagens gravadas pelos celulares das testemunhas do fato.

O uso de imagens registradas por câmeras de circuitos internos de segurança, de drones e de dispositivos móveis – principalmente celulares smartphones – torna-se cada vez mais corriqueiro no telejornalismo. A tendência é tamanha que um telespectador mais atento perceberá o uso desse tipo de imagem em praticamente todas as edições dos telejornais das diversas emissoras brasileiras. No caso do Jornal Nacional desta segunda-feira (30), a única reportagem selecionada traz cinco momentos diferentes em que as imagens registradas pela audiência foram úteis para ilustrar a notícia.

MOMENTO 1 – A primeira imagem, que vai de 0’25” a 0’31”, foi registrada por uma moradora que mostra a rua do seu bairro alagada. Embora a imagem esteja um pouco trêmula, provavelmente devido à gravação ter sido feita sem o uso de tripés, ou seja, a gravação foi feita com o celular nas mãos, o problema técnico não foi empecilho para o uso da imagem. Além da imagem foi usado também o recurso do sobe som, isto é, aparece a voz da moradora relatando o problema enfrentado por conta da chuva forte. “Não tem como sair de casa, eu estou com a água no joelho“, diz a moradora. A fala é transcrita em forma de legenda para que o telespectador compreenda o que está sendo dito. A partir do momento em que se dá voz a uma pessoa comum, testemunha e vítima do fato noticiado, o telejornal torna a informação mais confiável e ao mesmo tempo dramática. É uma maneira de legitimar a mensagem através do relato de uma fonte atingida pelo fato noticiado.
Figura 01 (Reprodução: JN / Rede Globo)

MOMENTO 2 – Logo em seguida aparece a segunda imagem gravada por telespectadores, entre os segundos 0’32” e 0’39”. “A água já está chegando na cintura de quem passa na rua. E o carro do vizinho aqui já está quase boiando“, diz a voz de um homem que testemunha a enchente. Os caracteres que aparecem na tela (“imagens gravadas com celular”) confirmam a origem dos registros amadores.
Figura 02 (Reprodução: JN / Rede Globo)

MOMENTO 3 – Aos 0’43” da reportagem é possível perceber que uma imagem da audiência sustenta o off da repórter. Em meio aos registros feitos em HD pelo cinegrafista da emissora aparece uma imagem em SD que, provavelmente, foi registrada por uma pessoa comum.
Figura 03 (Reprodução: JN / Rede Globo)

MOMENTO 4 – Já entre 0’50” e 1’00” aparece mais uma imagem gravada com celular. Nem mesmo o fato de a gravação ter sido feita com a câmera na vertical – o que não é recomendado – impediu o uso do material na versão final da reportagem que foi veiculada em rede nacional. Mas para isso o editor de imagem usou uma arte de fundo para inserir a imagem gravada com celular. Assim, a imagem de celular não perde sua essência amadora, mas, ao mesmo tempo, fica plasticamente melhor para ser exibida. “Deixando minha casa para trás, agora. Como podem ver, a água já está aqui no meu peito. Tô levando aqui a minha mãe pra (pausa), pra casa da minha tia“, fala o morador que grava a situação olhando para a câmera. Mais uma vez o editor usar o crédito “imagens gravadas com celular” para identificar a origem do conteúdo imagético.
Figura 04 (Reprodução: JN / Rede Globo)

MOMENTO 5 – Outro registro com celular aparece em 1’42” e segue até 1’48”. Os sete segundos de imagens mostram o momento em que uma barreira cedeu e fez uma vítima fatal. Mesmo com a baixa qualidade da imagem, seu uso foi necessário pelo valor que tem já que registra o exato momento em que a tragédia acontece, ou seja, é um flagrante do deslizamento de terra.
Figura 04 (Reprodução: JN / Rede Globo)

Curiosamente, aos 1’56” é possível ver uma pessoa usando o celular para fazer imagens do local do acidente. Trata-se de uma funcionária da Defesa Civil que usa o dispositivo móvel para registrar imagens que provavelmente serão úteis em seu trabalho posteriormente.
Figura 06 (Reprodução: JN / Rede Globo)

A reportagem é complementada com imagens aéreas e com imagens gravadas pelo cinegrafista da emissora afiliada à Rede Globo.
Figura 07 (Reprodução: JN / Rede Globo)

Na maioria das vezes em que imagens da audiência são utilizadas no telejornalismo convencional tratam-se de imagens com grande valor notícia. Pelo seu aspecto curioso, testemunhal e flagrante é que são usadas pelas emissoras e telejornais. Esses são pontos positivos. Mas existem também os pontos negativos, que vão desde a autorização ou não das imagens que muitas vezes são compartilhadas nas redes sociais e, assim, são consideradas como se fossem de domínio público. Embora não seja o caso da reportagem usada como exemplo, em algumas situações os programas de TV usam trechos que expõem demais as pessoas. É um sensacionalismo que busca ganhar a audiência mesmo que se precise ultrapassar a barreira do que é considerado ético entre os profissionais da comunicação. E mesmo que existam subjetividades em relação ao que é, ou não, ético, obviamente que existe também um senso comum para se definir o que é exploração da imagem alheia ou desrespeito à privacidade dos indivíduos.

Deixe seu comentário