As indelicadezas da inflação

Publicado em 25 de maio de 2016
por Welington Gonzaga
As indelicadezas da inflação
# Crônica #
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A ida ao supermercado no Brasil ainda não é tão dramática quanto parece ser na Venezuela dos dias de hoje. No país vizinho os problemas são a falta de produtos básicos nas prateleiras e uma inflação que chega aos 700%. Já no Brasil, por enquanto, o que causa aborrecimento é apenas a elevação gradativa dos itens da cesta básica. Não que também não seja preocupante. São tempos difíceis.

Nos últimos meses ir às compras é uma tarefa que o brasileiro inicia já sabendo que não vai conseguir completar. Com os produtos mais caros e o orçamento mais apertado é comum fazer uma lista grande de produtos e, chegando ao mercado, ir eliminando alguns itens. O que está muito caro é racionalmente substituído por uma marca genérica ou é totalmente eliminado. Parece um jogo no qual soma ponto quem consegue desapegar mais.

Em momentos de crise econômica surge a indelicadeza. Mas tudo depende do ponto de vista. Para uma criança mimada acostumada ao iogurte de uma marca top de linha a indelicadeza vem do pai que diz não poder mais levar aquela iguaria. Para o filho ou a filha adolescente a indelicadeza está no corte do refrigerante. Para o próprio pai a indelicadeza está em não tratar a cerveja como prioridade. A mãe vai sentir a indelicadeza quando tiver de trocar o amaciante mais cheiroso por um de segunda linha.

A indelicadeza atinge a todos. Até a balconista, coitada! Em tempos assim não há gorjetas e nem frases curtas como “Fique com o troco!“. O mais comum é ouvir frases sem verbos. Os verbos somem em períodos de inflação. Hoje a funcionária do balcão já ouviu um “Nossa!” de um cliente que se espantou com o valor total da compra e um “Credo! Que caro!” de uma aposentada que mesmo antes da crise já estava acostumada a fazer milagres com o que recebia por mês.

Mudanças de comportamentos vêm na tentativa de se gastar menos. Em vez de pegar os carrinhos do supermercado muita gente tem optado pelos cestinhos onde cabem poucas coisas. O objetivo é não transbordar de produtos e, assim, também não ultrapassar o limite estipulado para o valor da compra.

O vale-alimentação acaba antes da metade do mês. As compras que vêm no restante do mês são feitas no cartão de crédito, o que faz com que o comprometimento à renda vá se tornando uma bola de neve. Pobre trabalhador brasileiro! Outro dia ouvi uma balconista conversando com outra do caixa ao lado.

Amiga, esse mês vou receber apenas 50 reais de salário?

Por que? — estranhou a colega de trabalho.

Vou descontar as coisas que comprei ao longo desse mês aqui no mercado — disse desanimada.

As coisas estão caras demais, né?!!

Aham! Meu salário vai ficar por conta do mercado.

Em épocas assim, basta observar as próprias ações dentro do supermercado para notar que existem muitas indelicadezas. Mesmo que se chegue bem humorado para as compras, o otimismo não dura até o momento de se passar no caixa. E, assim, a balconista, coitada, é o escopo das indelicadezas.

Semana passada cometi o erro de ir às compras sem lembrar que passamos por tempos difíceis. Queijos, petiscos para gatos, embutidos, azeites e carnes foram para o cesto. Na hora de pagar, estranhei o valor e manifestei o descontentamento para a balconista. Reclamei como se a inflação fosse culpa dela. Imediatamente percebi a indelicadeza praticada e tentei remediar.

Desculpa! Não quis dizer que você passou algum produto a mais ou que tenha alguma culpa.

Chegando em casa você confere a notinha — respondeu secamente a moça.

Embora eu merecesse aquela aspereza no tratamento, tal fato apenas provou mais uma vez a teoria de que as indelicadezas se multiplicam com a inflação. De lá pra cá, de cá pra lá, o aborrecimento é geral!

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