Espaço de comentários é território dos ‘haters’

Publicado em 28 de abril de 2016
por Welington Gonzaga
Espaço de comentários é território dos <i>‘haters’</i>
# Comportamento na Rede #
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Como o brasileiro assimila notícias veiculadas nas mídias sociais? Esse questionamento foi feito numa proposta de atividade de um curso de pós-graduação em Jornalismo. A proposta era que os alunos fizessem uma análise breve sobre os comentários postados pelos leitores a respeito de uma notícia. Era para escolher uma publicação aleatoriamente e acompanhar as impressões postadas tanto no site do veículo de comunicação quanto na página oficial do mesmo veículo numa rede social.

Foi escolhida, então, uma notícia publicada em 24 de abril de 2016, no site do caderno “E Mais”, do Estadão, com o título “‘A TV brasileira ainda é muito tradicional’, diz o diretor argentino Diego Pignataro’“.

Enquanto na página do “E Mais” não houve comentários publicados, na página do “Estadão” foram recebidos oito comentários e seis respostas a comentários. No site oficial do veículo foram contabilizados apenas quatro comentários e duas respostas a comentários. Numa análise breve e superficial, o que se percebe é que conteúdos compartilhados nas redes sociais recebem mais interações. Esse comportamento dos leitores revela uma tendência entre os usuários das redes sociais, que é comentar, curtir ou compartilhar imediamente o conteúdo que lhe desperta interesse.

Outra característica marcante é que a maioria dos comentários demonstra que as pessoas não leem o conteúdo por inteiro. Grande parte opina apenas com impressões e interpretações limitadas dos títulos ou manchetes lidos.

Comentários no site “E Mais” — Dos seis comentários verificados, havia um publicado duas vezes, ou seja, eram apenas cinco comentários. Desse total, um comentário qualificou negativamente o jornal impresso que publicou o conteúdo (“O estadão* já foi um bom jornal“, escreveu o leitor Sergio Porto), um destacou a qualidade das produções da TV brasileira (“Se tivesse um Oscar pra novelas, com certeza seriamos imbatíveis, se premio* Nobel valesse para autor de novelas a mesma coisa. O Brasil tem uma cultura totalmente diferente do resto do mundo, o que muitas vezes confundem e faz parecer que é um país ‘desaculturado’, o que não é verdade”, comentou Marcos Magnenti) e três comentários continham opiniões políticas – principalmente relacionando política com o poder e a influência dos meios de comunicação sobre a cultura e a sociedade – fugindo do assunto principal da notícia.

Comentários no Facebook — A notícia não obteve comentários na página do “E Mais”, embora tenha sido compartilhada 12 vezes e curtida cinco vezes. Já na página do “Estadão”, que tem um número de seguidores muito mais expressivo, além de receber 81 curtidas, a notícia recebeu oito comentários e seis respostas a comentários. Desse total, cinco tinham teor político com crítica ao governo e ao momento atual de crise no Brasil. Apenas dois comentários destacavam a qualidade do tema abordado pela notícia, embora sem aprofundamento e com ironia: “Imagine, apologia a violência no ratinho*, bunda de fora, no outro, imaginem“, escreveu Jully Vasconcelos, e “Da america latina* o mundo nao espera nada de decente“, escreveu Osvaldo Passarelli.

O aspecto limitado das opiniões e colaborações dos leitores pode ser interpretado de diversas maneiras. Uma delas seria a rapidez e superficialidade típicas mesmo do consumo de conteúdo pela internet. Outra seria o desinteresse quase intrínseco do brasileiro pela leitura mais aprofundada e interpretativa. Há também o fato de que na internet, notadamente das redes sociais, as pessoas se sintam livres para espalhar ódio – os chamados “haters” – e críticas pouco construtivas.

Através desse exercício prático, o que se assimila é que, além de analisar os comentários publicados pelo público em geral, cada um deve praticar uma espécie de “auto-moderação” sobre si mesmo. Não se trata de “auto-censura”. É preciso apenas avaliar e refletir se as próprias opiniões não estão só colaborando para que o espaço que deveria ser democrático e rico, acabe se transformando num mero espaço de desrespeito.


Reprodução da postagem no Facebook, em “Estadão”

* Erros de digitação e não uso de acentos, por exemplo, foram reproduzidos da mesma maneira como publicados pelos leitores.

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