Filmes de só um cenário

Publicado em 15 de fevereiro de 2016
por Welington Gonzaga
Filmes de só um cenário
# Dicas de Filmes #
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O serviço de streaming de filmes Netflix disponibilizou recentemente no catálogo brasileiro um novo filme chamado “Circle“. É uma produção independente que foi lançada no ano de 2015, nos Estados Unidos. Embora tenha 86 minutos de duração, o filme se passa em apenas um ambiente. Trata-se de uma câmara que se assemelha a um tabuleiro no qual 50 estranhos são transformados em peças de um jogo mortal. Nesta espécie de jogo de xadrez humano, a cada dois minutos uma pessoa é escolhida para ser eliminada, ou seja, morrer.

“Circle” reúne diferentes tipos e estereótipos num único ambiente. Os diálogos são inteligentes e permitem ao espectador que conheça gradativamente a identidade de algumas personagens. Diante da diversidade vêm à tona temas como racismo, homofobia, entre outros. Há um momento em que um homem pergunta a uma mulher: “O que seu marido faz?”. Ela responde: “Eu tenho uma esposa”. Ele retruca: “Então, você é lésbica”. A mulher confirma: “Sim. E daí? Isso não faz a menor diferença”. A discussão continua: “você acha certo que uma criança seja criada com duas mães gays?”, questiona o homofóbico ao saber que mulher tem uma filha. “Não estamos em 1950, cara”, defende outra pessoa que acompanha a discussão. “O quê? Você acha certo criar uma menina nesse ambiente? Duas mães gays fazendo sexo pela casa toda? Não é tão ruim quanto dois homens, mais ainda é errado. Talvez seja uma boa coisa você estar aqui. Você vai dar a essa menininha uma chance de ter uma vida normal”, provoca o homofóbico na tentativa de convencer os demais de que a próxima a ser eliminada do jogo deva ser a mulher homossexual.

Geralmente filmes que acontecem num único cenário ou ambiente tendem a conquistar o espectador pelo texto. É tão rico, inteligente e bem elaborado que parece mais teatral do que cinematográfico. Outro bom exemplo desse tipo de obra é o filme “Deus da Carnificina“, de 2011, dirigido por Roman Polanski. São as brilhantes atuações do elenco composto por apenas quatro atores que seguram os 80 minutos de filme. Tanto é verdade que o longa chegou a receber duas indicações ao Globo de Ouro na categoria melhor atriz.

A história é baseada numa peça teatral chamada “God of Carnage”: o casal Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz) é convidado por outro casal, Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), a irem na casa que moram conversar sobre a briga que seus filhos tiveram na escola. A intenção é dialogar, entender o motivo da briga e, assim, encontrar a melhor solução para que outros conflitos não venham a acontecer. Aos poucos, a cordialidade vai dando espaço a indiretas e ofensas, fazendo com que o espectador acompanhe as discussões como se fosse um vizinho espreitando a briga de quem mora ao lado. É envolvente, inteligente e, em alguns momentos, o espectador esquece que o filme se passa num único ambiente.

Quem gosta de clássicos certamente já assistiu a “Festim Diabólico“, de Alfred Hitchcock. O filme foi lançado em 1948 e, além de se destacar por acontecer num único cenário, foi rodado inteiramente em tomadas de 10 minutos, em plano sequência, dando a impressão de que não há cortes. É uma obra que impressiona também pelo seu suspense. Dois rapazes matam um colega e, em seguida, escondem o corpo dentro de um baú. Com a intenção de provar que seria possível praticar um crime perfeito, logo após o assassinato promovem uma confraternização no apartamento. E a ousadia dos assassinos é tamanha que usam como mesa para recepcionar os convidados o baú onde esconderam o corpo da vítima.

Outro filme que acontece num único (e apertado) cenário é “Enterrado Vivo“, de 2010. São 95 minutos que irão durar uma eternidade para quem sofre de claustrofobia, ou seja, quem tem medo patológico de permanecer em lugares fechados. Além de ser gravado integralmente num buraco, conta com apenas um ator no elenco. Só não é um monólogo porque outros atores aparecem com suas vozes. O orçamento de “Enterrado Vivo” foi baixíssimo, considerando os padrões hollywoddianos: US$ 2 milhões de dólares.

Entre filmes mais recentes há um que não foi rodado num único cenário, mas que entraria facilmente na lista porque a maior parte da história acontece dentro de uma cabana. Trata-se de “Os 8 Odiados“, oitavo filme de Quentin Tarantino. Os diálogos são enormes e, para o espectador comum que não é fã do diretor, podem ser cansativos. E como todo bom filme de faroeste há assassinos, xerife e caçadores de recompensas, mas não há distinção entre mocinhos e vilões. São oito bandidos que se refugiam numa cabana para escapar de uma intensa nevasca. Todos os personagens são perigosos e, ao mesmo tempo, são vulneráveis.

Há diversos filmes que foram gravados num único cenário, como “Dogville” (2003), “Por um fio” (2002), “Doze homens e uma sentença” (1957), “Cubo” (1997), “1408” (2007), entre outros. Confira, a seguir, alguns trailers dos filmes citados neste artigo.

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