Desaparecimento na Rua Madalena

Publicado em 23 de fevereiro de 2016
por Welington Gonzaga
Desaparecimento na Rua Madalena
A Ilha Flutuante
0

Image Map

O movimento da Rua Madalena era grande de segunda à sexta-feira. Mas no horário de meio-dia às duas da tarde, logo após o almoço, a rua ficava deserta. A população local mantinha a tradição de fazer a sesta, preservando o hábito de dormir ou descansar por até duas horas após o almoço.

A Rua Madalena era a mais comprida do bairro e, embora fosse plana, possuía uma estrutura pouco comum. Construída numa área de vale, entre dois morros, a rua só não era sem saída porque havia duas ruas em suas extremidades. Uma marcava o início e a outra o fim da Rua Madalena. O primeiro cruzamento era com a Rua Rubens Paiva e o segundo com a Rua Marco Aurélio Olivetano. Eram as alternativas para entrar e para sair dali.

A construção mais antiga da rua era uma escola. O prédio ficava exatamente entre os dois cruzamentos, marcando a metade da Rua Madalena. Na escola as aulas do período matutino iam até o meio-dia, quando um sino era tocado para indicar aos alunos o fim das aulas da manhã. Mas, para a vizinhança, o sinal tinha outro significado: abria o horário da sesta.

A saída das crianças da escola era o último som que se ouvia na rua por aquela hora. Normalmente, os estudantes saiam em bando, apressados e fazendo barulhos típicos de saída de portão de escola. Conforme as crianças passavam em frente aos pontos comerciais, os estabelecimentos iam fechando as portas. Havia bar, barbearia, mercearia, açougue, oficina mecânica, padaria, perfumaria, loja de aviamentos, sapataria, hotel, entre outros. O temor de todo aluno era ficar de castigo por indisciplina, tendo de sair meia hora depois dos colegas. Caso isso acontecesse, teria de enfrentar a Rua Madalena vazia. E, para a maioria, andar aquele trecho sozinho até chegar a um dos cruzamentos era motivo para pânico.

De frente para a escola havia uma praça. Era uma praça pequena porque fora construída no entorno de uma pedra que muitos anos atrás havia rolado do morro da direita e parado pouco antes do local onde começava a rua. Não havia informações oficiais que confirmassem as circunstâncias ou a data em que a pedra havia rolado ladeira abaixo. Mas, pelo que diziam, a pedra já estava naquele local antes mesmo da chegada dos primeiros moradores da Rua Madalena.

A praça era circular. Havia alguns bancos distribuídos na extensão do calçamento que contornava a pedra. Quem se sentava num desses bancos podia contemplar a imensa pedra, já que todos os assentos ficavam virados de frente para o centro da praça. Era como se em vez de monumentos, fontes ou estátuas, houvesse uma enorme pedra no meio da pracinha.

Das janelas de algumas das salas de aula da escola também era possível contemplar a pedra da praça. Aliás, o nome pelo qual todos chamavam o local era Praça da Pedra. Quando alguém que não morasse no bairro quisesse saber onde ficava a escola, ouviria de todos — Fica de frente para a Praça da Pedra. — A pracinha era ponto de referência e paisagem para contemplação dos alunos desinteressados no conteúdo das aulas.

Juca estava no grupo dos que se hipnotizavam facilmente pela pedra avistada da janela e esquecia a professora falando na frente da turma.

Juca? — chamou a professora prolongando o som da última vogal como se fossem cinco letras as juntas. Mesmo assim o menino permaneceu inerte. Nem o riso coletivo dos colegas o tirou do estado de petrificação. — Ô Juca! — insistiu a professora, desta vez sem estender o som final com a intenção de chamá-lo rispidamente.

Sim, professora! — respondeu imediatamente virando a cabeça e olhando para a frente da sala. — Eu estava olhando pra fora mas estava ouvindo o que a senhora estava dizendo.

Não era o que parecia, Juca. Se fosse assim teria me respondido já na primeira vez que lhe chamei. E não foi o que aconteceu — argumentou a professora.

Juca abaixou a cabeça numa demonstração de embaraço, mas com a cara fechada em sinal de aborrecimento. A professora percebeu.

Por que está emburrado? Você está errado, não percebe?

Eu não estou emburrado, se a senhora faz mesmo questão de saber — retrucou em tom mais agressivo que de costume. A professora não gostou. E para afirmar sua autoridade e manter o respeito que os demais alunos tinham com ela, colocou Juca de castigo.

Daqui a pouco, quando o sino tocar meio-dia, todos poderão sair, menos o Juca — disse enquanto anotava no quadro o dever de casa para a turma. — Aproveita, Juca, e já adianta sua lição nessa meia hora que ficará a mais aqui na escola comigo.

A turma riu novamente. Os colegas mais próximos zombavam com uma mão abafando a gargalhada e a outra apontando para Juca. Faltavam apenas dez minutos para o fim da aula. O pouco tempo que restava fez a agitação da turma cessar rapidinho. É que ninguém queria terminar de copiar a lição depois do meio-dia e ter de enfrentar a Rua Madalena vazia. Apenas Juca enfrentaria esse desafio. E, só de imaginar, os colegas ja estavam ansiosos por ele.

Os ponteiros do relógio que ficava acima do quadro andavam acelerados. Juca observava o tique-taque quando percebeu que um pedaço de papel, provavelmente um bilhete, passava de mão em mão pela sala, carteira por carteira, até chegar nas suas mãos. Olhou e leu “Juca” escrito na folha bem dobrada. Parecia uma cola, mas como não era dia de prova, as chances de ser um bilhete eram muito maiores.

Não se preocupe em passar pela Rua Madalena sozinho. Ela não estará vazia porque vou esperar você na Praça da Pedra. Vamos embora juntos. Com carinho… Aninha“. Juca olhou pra frente e seus olhos encontraram os de Aninha. A menina sorriu e seus olhos foram ficando gradativamente cerrados. Juca sorriu de volta ao mesmo tempo em que se enrubesceu. Ficou vermelho quase da cor da fita que Aninha tinha nos cabelos.

O sinal tocou e a turma foi embora. Juca ficou parado e seguiu a recomendação da professora para que adiantasse o dever de casa. Apenas numa olhada rápida pela janela viu os colegas correndo pela Rua Madalena, indo para casa, enquanto os estabelecimentos comerciais iam baixando as portas conforme as crianças passavam. Na Praça da Pedra observou Aninha chegando e acenando, indicando que iria esperar por ele atrás da enorme pedra enquanto lia um livro sentada num dos bancos.

Na sala o relógio já não corria como alguns minutos atrás. A meia hora do castigo custou a passar. Em 20 minutos Juca terminou a lição e continuou a fazer aquilo que havia sido o motivo do seu castigo: contemplar a Praça da Pedra. Não via Aninha, mas sabia que ela estava lá esperando por ele.

(…)

Deixe seu comentário