Olhos famintos de Madaya

Publicado em 12 de Janeiro de 2016
por Welington Gonzaga
Olhos famintos de Madaya
# Ficcionando a realidade #
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A menina com fome olha para a câmera e a imagem registrada circula o mundo. É um olhar que transmite muitos sentimentos. Além da fome, evidencia medo e um pedido de socorro. As imagens foram registradas numa cidade da Síria onde a população está passando fome. Faz seis meses que os moradores estão isolados do mundo após um bloqueio do governo. Madaya é o nome da cidade. Mas é como se Madaya fosse o nome dessa garotinha da foto. Vamos, então, imaginar uma história.

Madaya é a filha mais nova de um jovem casal que, mesmo estando na faixa dos trinta anos, já tem cinco filhos. Madaya ainda não sabe falar. Pela pouca idade, tem apenas o choro para sinalizar quando quer alguma coisa. Nos primeiros dias de bloqueio da sua cidade, a menina chorava alto quando estava com fome. Hoje, Madaya não tem mais forças nem para chorar. No ínicio do isolamento, Madaya estava dando alguns dos seus primeiros passos, aprendendo a andar. Mas agora, fraca, não consegue sequer ficar de pé. Por isso a mãe fica com a filha no colo a maior parte do tempo, embora também esteja fraca. Foi a maneira também que a mãe encontrou para monitorar a filha, pois, com a menina nos braços, acompanha se ela está realmente bem.

O frio do inverno castiga a população tanto quanto a falta de alimentos. Alguns idosos e crianças adoeceram e morreram. Para evitar que Madaya venha a adoecer, a mãe, então, agasalha a filha com cuidado, assim como os demais irmãos. Afinal, como também faltam medicamentos, a mãe não quer que os filhos fiquem doentes. Uma criança fraca doente num inverno rigoroso pode ir a óbito em poucas horas.

Para garantir a sobrevivência dos filhos a mãe fez inimagináveis esforços e sacrifícios. O pior deles foi abater o próprio gato da família. Mentiu para os filhos dizendo que o bicho de estimação havia fugido, quando na verdade ele estava sobre a mesa num ensopado de carne. A mãe sentia profundamente por ter feito aquilo, mas foi uma medida extrema. Certamente até o último dia de sua vida lembraria daquele ato covarde e heroico ao mesmo tempo. Os vizinhos também estavam fazendo o mesmo, com pesar, com seus cachorros e gatos. Era uma tristeza!

A salvação para o povo da cidade de Madaya, pelo menos temporariamente, chegou com a ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas. A ONU, que até então os moradores dali só tinham ouvido falar no bloco de notícias internacionais do telejornal, enviara alimentos e medicamentos. A ajuda era bem-vinda, embora chegasse um pouco tarde demais. Antes que o mundo visse os olhos famintos de Madaya, muitas pessoas morreram. Foram vítimas da fome decorrente de uma guerra que nem mesmo sabiam ao certo porque existe. Apesar de tudo, Madaya sobrevive!”

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