Medos de infância

Publicado em 11 de Janeiro de 2016
por Welington Gonzaga
Medos de infância
# Crônica #
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Hoje um pássaro entrou pela janela do quarto no meio da tarde. Era um desses bem pequenos, parecido com um beija-flor. Mas o bicho estava tão agitado procurando a saída que nem deu para observá-lo direito. Durante os poucos segundos que bateu asas dentro do quarto deu tempo apenas de lembrar de um grande temor da infância.

É que, quando era criança, ouvia os adultos dizerem que um pássaro entrar dentro de casa, pela janela, poderia ser mau presságio. Para de fato ser algo ruim, diziam que o pássaro deveria entrar por um lugar e sair por outro. Por exemplo, se entrasse pela janela do quarto e saísse pela porta da sala, boa coisa não seria aguardada no futuro. Alguns diziam que o pássaro perdido trazia aviso de morte na família ou de alguma pessoa conhecida. Mas nada de mau aconteceria se o pássaro saísse pela mesma janela que entrou.

Outra história parecida dizia que quando uma borboleta grande, dessas pretas ou azuis, entrasse na casa da mesma maneira que o pássaro, traria azar. Por essa razão borboletas e pássaros voando dentro de casa espalhavam pânico entre as crianças. Havia ainda um agravante em relação às borboletas. Diziam que em suas asas existia um pó venenoso que, se entrasse em contato com os olhos, causava cegueira. Não havia nunca acontecido com alguém conhecido ou sequer havia dados científicos que comprovassem tamanha ameaça. Mesmo assim toda criança acreditava.

Nessa época existiam mais lendas que amedrontavam quem tinha seis, sete, oito anos. Apontar as estrelas do céu com a mão, por exemplo, fazia nascer verrugas nos dedos. O medo era de mostrar sem querer e, no amanhecer do dia seguinte, acordar com as mãos deformadas de tanta verruga. Criança tinha medo também de deixar os chinelos com as solas viradas para cima. Diziam que a mãe morria. A mesma punição valia para quem andasse de costas.

Já para causar a própria morte bastava tomar um copo de leite depois de ter comido manga. Na verdade, o máximo que isso poderia causar seria um desconforto intestinal ou uma dor de barriga. Mas, naquela época de inocência, era melhor não arriscar. Não podia também usar guarda-chuva dentro de casa senão interrompia a fase de crescimento e virava anão. Brincar com tesoura enquanto chovia atraia os raios da tempestade. Eram ideias apavorantes. Mas a pior era acreditar que o “homem do saco” poderia lhe raptar e vender seus órgãos no mercado negro. Até os pais, em dias de muitas traquinagens dos filhos, diziam que o seqüestrador passaria sorrateiro pelo bairro e lavaria as crianças desobedientes num saco carregado nas costas. Que pavor!

Superados esses medos da infância, chegamos não tão ilesos à fase adulta. Agora os medos são outros. Mas do que será que as crianças de hoje têm medo? Ainda existe, por exemplo, receio de que algum monstro possa sair debaixo da sua cama? Ou de que uma coruja cantando em torno da casa de madrugada signifique notícia ruim para o dia seguinte? Ou de que quando um louva-a-deus ou uma joaninha pousa sobre seu braço signifique sorte? O de que ver placas de carro com números repetido possa significar alguma coisa?

Em tempo, o pássaro de hoje saiu pelo mesmo lugar que entrou. Graças a Deus!

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