O Banho de Chuva

Publicado em 17 de dezembro de 2015
por Welington Gonzaga
O Banho de Chuva
# Crônica #
2

Morador de rua não tem endereço. Ou melhor, tem, mas não é fixo. Cada dia ou cada semana mora num lugar diferente. João, por exemplo, nesta quinta-feira, acordou na Av. Francisco Navarra, uma das mais movimentadas da cidade. Já fazia quase uma semana que esse era seu endereço. Passou a dormir ali, em frente a um dos pontos comerciais vazios com placa de “aluga-se”, por conta de uma marquise que o protegia da chuva e do Sol.

E o tempo hoje estava para chuva. Logo no início da manhã, ao despertar naquele concreto duro João avistou nuvens escuras que vinham em direção à cidade. — Hoje vai ser dia de tomar banho — pensou. A previsão do tempo que ouvira na noite anterior estava precisa. Embora não tivesse TV ou rádio, João aproveitava quando a moradora da parte de cima do sobrado ouvia o noticiário em volume alto.

A “vizinha” era uma velhinha de 70 e poucos anos. Pela manhã João conseguia ouvir quando ela descia as escadas para comprar pão na padaria da esquina. — Quando ela passar aqui em frente, vou pedir um trocado pra ela. Pode até ser que ela pense que irei comprar cachaça, mas irei convencê-la de que será para comprar um sabonete, por mais estranho que isso possa parecer – planejou não no padrão culto da Língua Portuguesa. Alguns minutos depois, desceu a vizinha em direção à padaria. E João não perdeu tempo assim que a viu.

Ô, Dona! Dá uma ajudinha preu comprar uma coisa que tô precisando?

Essa coisa que você está precisando tem algum teor alcoólico? — respondeu ironicamente a vizinha com outra pergunta.

Não, senhora! Vou falar a verdade: eu quero comprar um sabonete pra poder tomar um banho. Já faz uns dias que não tomo banho. Sabe como é a vida na rua, né?

Graças a Deus eu não sei, mas imagino como seja — respondeu a vizinha. — Mas estou só com o cartão de crédito, então, vou comprar eu mesma o sabonete e, na volta, entrego um Dove bem cheiroso para você, pode ser?

Claro!

João não saiu do lugar até a vizinha voltar. Ela, por sua vez, passou na farmácia que ficava quase ao lado da padaria e providenciou um sabonete para o morador de rua. No trajeto chegou a questionar mentalmente a respeito do lugar onde aquele homem iria tomar banho. Afinal, banheiro público não havia ali por perto. — Ah, mas não me interessa — respondeu a si mesma. Quando chegou perto de João colocou a caixinha branca do sabonete sobre as mãos sujas, de pele grossa, com unhas encardidas e compridas que se abriram para ela. João agradeceu. A vizinha, em silêncio, voltou para sua casa.

E lá vinha a aguardada chuva. Os primeiros pingos no chão fizeram João levantar e, só de bermuda, caminhar até um terreno baldio que ficava no quarteirão ao lado. Era a alternativa que tinha para tomar seu banho digno, que não era de todo dia.

2 Comentários

  1. Edna Marion disse:

    Fascinante! Quero saber mais sobre João!

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