Um breu inspirador

Publicado em 28 de setembro de 2015
por Welington Gonzaga
Um breu inspirador
# Crônica #
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Inspiração às vezes vem nos momentos inoportunos. Esse texto é o resultado de uma inspiração que não poderia ter pior hora para ocorrer. Cada palavra é escrita com uma caneta vermelha num bloco de papel jornal antigo cujas folhas estão unidas por um espiral. A cor da caneta não demonstra preferência, mas apenas resulta de uma escolha aleatória no escuro. Há mais de três horas que o bairro está sem luz.

A inspiração surgiu, então, à luz de vela. Por isso é efêmera como a chama que consome a cera. Uma distração e a inspiração se dissipa. Mas sem energia elétrica poucas distrações surgem no caminho de quem está habituado à TV, à internet e à leitura de livros digitais. A inspiração torna-se passatempo quando se fica no escuro. No breu é que a audição fica apurada. Ouve-se melhor até os próprios pensamentos. Parece que, assim, escrever fica menos complicado. Se errar na confecção do texto, não tem “delete” ou “backspace”. É preciso recorrer ao risco. Um ou dois traços horizontais bastam para ceifar a palavra que não caiu bem ou que foi grafada com erro.

Já parou para pensar como grandes autores do passado escreviam seus textos? Certamente nem todos contavam com máquinas para tal tarefa. Um caderno e um lápis seriam suficientes para produzir obras primas. Mas hoje é diferente! São computadores, softwares editores de texto, aplicativos, blocos de anotação online, enfim, uma parafernália à disposição. Porém, com frequência falta o básico: criatividade e conteúdo. Às vezes é preciso isolar o escritor do mundo — no escuro — para conectá-lo verdadeiramente ao mundo, sem distrações.

Chegando ao quarto parágrafo desse texto nascido à luz da vela, estou convencido de que a tecnologia mais aprisiona a mente do que liberta. Escrever no papel torna a composição mais íntima, genuína e prazerosa. É como redescobrir graça numa brincadeira de criança, que estava esquecida em algum canto da mente. Escrever assim, sem sequer pensar na possibilidade de um dia publicar ou compartilhar o texto, é uma experiência démodé. Neste momento já não penso mais como pensava no início deste texto, pois sinto que não haveria melhor hora para a inspiração acontecer do que agora, no breu. O breu é inspirador!

O texto chega ao fim. Por que? Porque a luz voltou. A inspiração é imediatamente extinta quando as luzes ficam acesas. O estopim para interromper o fluxo de palavras foi o grito coletivo da vizinhança, festejando o restabelecimento da energia. Aliás, é impressionante como todas as vezes que a luz acaba, depois, quando volta, as pessoas manifestam uma prolongada comemoração vocálica. Hoje foi “ohhh….”. Mas em outras ocasiões já ouvi “êhhh…” e “uhhh…”. Só não tem “ahhh…” e “ihhh…”. Porque “ahhh…” demonstraria insatisfação e “ihhh…” inspiraria desconfiança.

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