O botão

Publicado em 25 de setembro de 2015
por Welington Gonzaga
O botão
# Crônica #
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O objetivo do dia era não atrasar para bater o ponto no trabalho. A estratégia para isso incluía sair meia hora mais cedo de casa para, com folga, ir caminhando até a empresa. Outra ideia que teve foi deixar a roupa do dia separada, passada, pronta para vestir e ir trabalhar. Não queria perder tempo.

Calça, camisa, cueca, meia, cinto e sapatos estavam separados. De costume deixava o look do dia em cima da cama antes de ir para o banho. Mas as peças não ficavam dispostas de modo a formar algo parecido com um espantalho deitado na cama. Tinha cautela para não adquirir esse hábito que reprovava em outra pessoas.

Ao sair do banho decidiu passar a camisa mais uma vez. Tomou cuidado para retirar alguns pelos do gato de estimação que mantém em casa e que, inevitavelmente, grudam em todos os tipos de tecido. Em cinco minutos a camisa ficou pronta. Estava lisa, sem dobras ou ondulações.

Saiu de casa exatamente quando faltava meia hora para bater ponto que marcava o início do seu expediente na empresa. Tudo havia acontecido conforme o planejado. “Que bom!”, comemorava internamente.

No meio do caminho, porém, uma infelicidade. Parado em frente a faixa de pedestre aguardando para atravessar a rua quando o semáforo viesse a fechar, observou que faltava um botão na camisa. Num primeiro momento achou que o botão estivesse desabotoado. Mas constatou rapidamente que não havia botão ali, justamente na casa em cima do umbigo. “Como isso pode acontecer?”, resmungou.

— Droga! — chegou a pronunciar em tom agressivo. — E agora? O tempo que tenho não é suficiente para voltar em casa e trocar de camisa — calculou mentalmente após consultar o relógio no pulso. Seguiu para o trabalho, então, com um botão a menos!

A insegurança tomou conta de seu pensamento. A cada dez passos que dava conferia se o movimento da caminhada não deixava aquela barriga saliente e branca à mostra. Foram minutos que pareceram horas até chegar ao trabalho. A impressão que tinha era de que tanto as pessoas na rua quanto, agora, os colegas de trabalho reparavam naquela casa sem botão. Foi a jornada de trabalho mais demorada de toda sua vida profissional num esforço homérico para disfarçar que estava com aquele problema.

Passou o dia retraído e pouco conversou com a equipe. Lembrou de uma notícia que tinha lido dias antes no jornal a respeito de uma tentativa de homicídio na qual a vítima tinha sido salva por um botão.

— Sorte teve aquele açougueiro de São José do Rio Preto que, ao ser alvejado pelo vizinho numa vingança mal explicada, a bala parou no botão da camisa e não atingiu o coração. Mas se um botão salva, a falta dele também é capaz de matar, matar de vergonha — falava consigo mesmo após rejeitar o convite dos colegas para um café.

A contagem regressiva era para o fim do expediente. Se pudesse sairia do trabalho e iria até a loja mais próxima comprar uma coleção de camisas com zíper no lugar de botões. Até pesquisou na internet sobre o assunto para ver se existiam tais camisas. Estava chateado e decidido a evitar nova falta de botões no futuro. O dia só ficou menos pior quando descobriu que existia, sim, um projeto norte-americano chamado “The Fit Zip Shirt” que camuflava um zíper atrás dos botões da camisa. Para voltar a ser um homem seguro, agora precisava de camisas assinadas por Teddy Stratford. Paranoia de homem moderno.

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