O sábio leitor não convencional

Publicado em 24 de abril de 2013
por Welington Gonzaga
O sábio leitor não convencional
# Crônica #
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Era um ano em que o mês de abril estava terminando bastante frio, com temperaturas abaixo da média. Não precisava nem do anúncio oficial de um instituto de meteorologia para comprovar que estava exageradamente frio. Quem mais sentia a acentuada queda na temperatura eram os moradores de rua.

Numa dessas madrugadas geladas de outono (com cara de inverno) um homem cochilava sentado na calçada, apoiando as costas numa parede fria (revestida com azulejo), debaixo da marquise de um edifício. Ele tentava se aquecer com folhas de jornais que cobriam seu corpo.

O prédio ficava na esquina de uma movimentada rua. De frente havia um semáforo, onde um rico homem esperava (dentro de seu carro) a abertura do sinal. O veículo possuía aquecedor e, por isso, o frio do lado de fora não incomodava. Já a visão de alguém abandonado na calçada era desagradável. Mesmo assim o rico homem nada fez. Quando o sinal ficou verde, apenas acelerou o carro e deixou aquela imagem miserável para trás. Fez o que a maioria das pessoas faria e, por isso, nem sentiu culpa.

A aceleração brusca do carro assustou o homem que dormia aquecido pelas folhas de jornal. Ao despertar pediu, em pensamento, que Deus protegesse aquele desconhecido que acelerava perigosamente o veículo. Tal desejo evidenciava sua nobreza e sua humildade, contrastantes com sua condição miserável.

O que ninguém sabia, porém, é que aquele era o homem mais sábio da cidade. Sabedoria que não era apenas devido à sua idade avançada, mas principalmente porque tinha um dom especial. Ele era capaz de assimilar conhecimento por meio do contato do papel com a pele. Ele conseguia ler, não com os olhos, mas com a pele de qualquer parte do corpo. Assim, mesmo numa noite fria e solitária, o fato de estar coberto por jornais o tornava detentor de ainda mais informação e conhecimento. E como um verdadeiro sábio, estava convicto de que tinha tudo o que precisava para ser feliz: liberdade.

Um Comentário

  1. muito interessante o post, muito bom o blog, parabéns !

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